Entramos no século XXI com uma sensação de permanência que evaporou depressa. Durante um tempo, parecia que comércio, digitalização e ciência iam nos dar um piso liso, confiável. Olhando com calma, não foi bem isso. A incerteza não sumiu; mudou de textura. Antes, tinha contornos físicos e próximos. Hoje, ganhou contornos mentais, mensuráveis e interligados. A experiência de viver atravessado por tensões geopolíticas, notícias pingando a cada minuto, saltos de inteligência artificial e pressão climática cria um clima psicológico que nossos avós não reconheceriam de cara. Não é mais um mundo de tiros no quarteirão e fome na porta, embora essas violências persistam em muitos lugares. É um mundo onde a ameaça aparece num gráfico, num feed, num rumor que cruza oceanos em segundos e mexe com mercados, votos, humores.
A incerteza não sumiu; mudou de textura.
As incertezas de antes eram contundentes e próximas: epidemias sem antibióticos, safra perdida, convocação militar, sirene de bombardeio. Havia menos informação, menos escapismo tecnológico, menos rede de proteção e uma certeza brutal: sabia-se onde o perigo morava e o que ele fazia com o corpo. O medo era físico. O rádio e o jornal marcavam o passo dos acontecimentos; a rua dava a medida do possível. Hoje, a sensação é que tudo acontece ao mesmo tempo e em todo lugar. Uma decisão num gabinete distante bate na sua cesta de compras. Uma falha cibernética no país vizinho atravessa fronteiras invisíveis. Uma imagem forjada circula como verdade por horas, às vezes dias. Informação cresceu. Mas nossa referência encolheu.
O século passado tinha mapas mais simples, ainda que desenhados com sangue. O presente abre mapas sofisticados, que mudam conforme o ângulo e a hora. O medo contemporâneo é menos palpável e, por isso mesmo, mais pegajoso. Não nasce só do que pode ferir, mas do que pode confundir. De um lado, sabemos mais do que nunca. Do outro, essa mesma capacidade de medir, diagnosticar e noticiar escancara o quanto tudo se conecta, e como pequenas oscilações geram efeitos de largo alcance. A serenidade que um dia veio da ignorância hoje é impensável, e também indesejada. O preço de saber mais é sentir mais.
Bauman chamou nosso tempo de “líquido”. Não é licença poética, é o jeito dele nomear a dissolução de formas que pareciam durar: carreira linear, vizinhança que não muda, instituições que mandam sem disputar atenção. A modernidade líquida não inventou a incerteza; trocou a acústica. A sala ficou barulhenta. E seguimos tentando ouvir o essencial.
No Brasil, isso tudo tem outro sabor. A vida aqui quase nunca foi reta. Nos anos 60, aprendemos que instituições podem se fechar de um dia para o outro. Nos 80, vimos dinheiro perder valor na fila do supermercado; etiquetas remarcadas por cima de etiquetas. No começo dos 90, o improviso virou política. E a política tentou domesticar o improviso. Essa memória não romantiza nada; só lembra que a corda bamba não é novidade. Criamos, à força, um repertório: constância nos hábitos, vínculos fortes, ajustes rápidos com discernimento. Quando esse jeito de operar entra no manual e no calendário, a adaptação deixa de parecer reflexo e soa como competência.
As incertezas globais de agora falam outra língua. A guerra talvez não derrube a sua casa, mas encarece o seu almoço. A seca num lugar remoto eleva sua conta de luz. Um boato bem produzido muda a conversa da semana. A IA produz uma mistura estranha de espanto e expectativa: ajuda a escrever código, a detectar doença, e ao mesmo tempo cria novas avenidas para erro, viés e fraude. Quase todas as profissões estão atualmente pensando ao mesmo tempo como pode-se usar a IA para otimizar o que se faz e como essa IA pode deixar essa profissão irrelevante no futuro próximo. Tudo isso rápido demais. O clima não chega como filme de desastre. É a sequência de dias atípicos que, somados, desloca certezas em silêncio. Se o incerto não é novidade, o que mudou: o ritmo lá fora ou a régua com que medimos?
Ainda assim, há um fio que atravessa épocas. Quando as ameaças foram mais físicas, respondemos com convivência próxima, cerimônias simples e mão na massa. Agora que os riscos se espalham por sistemas e telas, respondemos com atenção compartilhada. Em ambos os casos, o que sustenta é o que fica entre as pessoas, não só as ferramentas que elas usam. O século XX ensinou coragem em cenários compactos. O XXI pede calma e lucidez em ambientes difusos. Não troca uma coisa pela outra; empilha.
Estamos de fato mais incertos, ou só mais conscientes de que o mundo sempre foi cheio de curvas? A diferença pode ser esta: hoje enxergamos as curvas por dentro. O algoritmo mostra a oscilação, a ciência descreve a correlação, as redes exibem o instante. Isso não faz do presente um vilão maior que o passado; só muda a lente. Antes, a ignorância protegia por não saber. Agora, a inquietação de saber demais. Entre um extremo e outro, dá para habitar a turbulência sem transformar cada bolsão de ar em tempestade.
Não sei se existe volta para um mito de certezas. Mas deve haver um jeito mais humano de estar aqui. Menos pressa na interpretação. Mais fôlego para escutar quem atravessa a mesma ventania de outro ângulo. E aquela confiança mansa de que as formas voltam a surgir, mesmo quando tudo parece líquido. Não é um manual. É um lembrete simples: a história nunca foi reta, mas seguimos encontrando caminho. E, quase sempre, juntos.



