Tenho insistido na importância das pessoas dentro das empresas porque já vi muita coisa coisa errada feita em nome de agile ou digital. Entre processos, produtos, mudanças, senso de urgência e transformação digital, uma dessas coisas permanece intacta:
Combinar processos e ferramentas é inútil quando não existem pessoas capacitadas para sustentar essa combinação.
Há esses tempos comentei sobre como a própria transformação digital, por exemplo, é feita por pessoas. Na verdade, as empresas são. E, sem as competências necessárias, as empresas e seus planos começam a falhar.
É aqui que entra a importância das soft skills (habilidades comportamentais), principalmente quando falamos de metodologia ágil.
Se pararmos para prestar atenção, vamos notar que os 4 fundamentos-chave do desenvolvimento ágil têm tudo a ver com essas habilidades:
Pessoas acima de processos e ferramentas;
Um software funcionando é mais importante do que sua documentação;
Colaborar com as pessoas é mais significativo do que negociar contratos;
Responder rapidamente às mudanças do mercado é melhor do que seguir um plano.
Ficou em dúvida de como as soft skills afetam cada um desses fundamentos? Eu explico.
Primeiro, processos e ferramentas não são usados em sua totalidade quando pessoas não sabem como usá-los de maneira inteligente. Sem criatividade, proatividade e ética — três soft skills muito importantes -, as ferramentas de trabalho fazem apenas o básico.
Pense em uma empresa que está seguindo uma estratégia data-driven, por exemplo. Usando um CRM ou uma CDP (customer data platform), o time de marketing pode ter uma quantidade incrível de dados sobre o consumidor — mas, se não souber como trabalhar eticamente com esses dados e ter pensamento crítico para gerar experiências assertivas, todo o dinheiro aplicado em ferramentas e processos é jogado no lixo.
Segundo: fica difícil ter uma noção clara de prioridade (software funcionando é mais importante do que sua documentação) se as soft skills não são desenvolvidas.
É claro que documentação é relevante. Isso ajuda no onboarding de novas pessoas e no conhecimento das aplicações. No entanto, se as pessoas não tomam decisões eficientes e de maneira rápida e alimentam documentos enquanto a aplicação está fora do ar ou cheia de bugs, temos um problema. Muitas vezes, manter produtos e projetos no ar é uma questão de flexibilidade e resiliência.
Em terceiro lugar: colaboração é a palavra-chave, e não apenas quando falamos de agilidade. A capacidade de entender motivações (pessoais e profissionais), absorver o contexto cultural e ter um ambiente harmônico em que as pessoas se comunicam claramente e ajudam umas às outras é vital.
Colaborar ajuda a evitar conflitos, eliminar ruídos e a resolver problemas de maneira mais rápida. Não dá para imaginar um mundo em que você não coopera com seus colegas de trabalho e com seus clientes, certo? As operações e os resultados estão interligados, e eles dependem da habilidade das pessoas terem empatia e se comprometerem com os resultados, independente delas serem clientes ou fornecedores.
Por fim, as soft skills são cruciais em um ambiente tão volátil quanto o que vivemos hoje. Não preciso nem lembrar de como precisamos ser flexíveis e compreensivos durante a pandemia e o trabalho remoto. Inclusive, nos processos de recrutamento deixo claro tanto para nossa recrutadora quanto para os candidatos que existem 3 pilares que são IGUALMENTE importantes no nosso: técnico, comunicação e relacionamento. Os 3 têm exatamente o mesmo peso na minha avaliação de um candidato.
Em uma mudança tão drástica e urgente, o que foi capaz de dar uma resposta à altura não foram códigos e processos velhos, e sim as habilidades não técnicas — aquelas que não estão escritas em frameworks, mas que deveriam ser parte da nossa rotina. Só assim veremos um mercado melhor preparado e empresas que não “estão”, mas “são” ágeis em sua essência.



