
Todo mundo carrega um cemitério de ideias no bolso. Abra a pasta de rascunhos do seu aplicativo favorito e conte quantas publicações morreram ali, na beira do “publicar”. O roteiro é sempre o mesmo. Você tira uma foto de um momento qualquer, ou escreve um parágrafo pescando alguma reflexão que achou interessante. O dedo chega perto do botão de publicar e você congela. Um tribunal invisível, formado por gente que você mal cumprimentaria na rua, monta acampamento na sua cabeça. Aí você recua. Apaga uma frase com medo de soar pretensioso, corta a lateral da imagem para esconder a louça na pia. Reescrevemos o texto, tirando a sua autenticidade, para se blindar de algum mal-entendido que talvez, quem sabe, um dia apareça. Quando vê, o esforço de antecipar a crítica alheia já comeu todo o impulso e conteúdo original de compartilhar. A tela apaga. O celular volta para o bolso, com mais um fantasma arquivado. As redes nos treinaram a pedir permissão para existir em público.
A internet tinha outra cara 1. Havia terrenos baldios, bairros pouco habitados, e a gente circulava sem esbarrar a cada passo num totem de propaganda. Tem saudosismo nisso, eu sei. Mas tem também uma crítica que se sustenta. Lembro do LinkedIn de vinte anos atrás: uma prateleira de currículos, meio estática, e o que se publicava ali era genuíno. O lançamento de um produto. Uma dúvida sobre um projeto, um pedido de ajuda. Alguém divulgando um material que talvez servisse de verdade para outra pessoa. Sem aquele “aproveita e deixa seu like” ou um call-to-action. Havia muito menos conteúdo, e não estou dizendo que era melhor ou pior, era só mais original 2. Menos enviesado para parecer um personagem impecável, sem opiniões fortes. Ninguém acordava com a obrigação moral de produzir epifanias sobre resiliência e liderança de alta performance.
Isso também aconteceu com o Instagram. Nos primeiros anos, funcionava mais ou menos assim também. Antes de abrir para todas as plataformas e virar essa multidão, o aplicativo tinha barreira de entrada (ele existia só para quem tinha iPhone, então sim, era meio ostentação). E esse isolamento criava um clima de experimentação protegido. O efeito colateral da baixa densidade era a ausência de medo. A gente postava foto sem estratégia nenhuma. Porque sei lá, era bonito ou fazia sentido para a gente, naquele momento. O filtro estourado por cima da imagem torta de uma xícara de café não precisava conversar com a identidade visual de uma marca pessoal coesa. A foto do teto da sala existia pela pura vontade de apertar o botão. Ocupávamos a rede sem essa asfixia de provar relevância a cada respiração.
Esse espaço neutro foi sendo privatizado pela economia da atenção. E gradualmente tudo foi sendo homogenizado, pasteurizado, sem identidade. Tanto nos textos quanto nas fotos. Não que todos não pareçam exatamente iguais, mas todos buscam a mesma coisa: atenção. Com isso, o LinkedIn se tornou um grande livro de “páginas amarelas” 3, só que digital. Inundado por propaganda, conteúdo que não pertence à esfera profissional, ou tentativas tristes de tirar lições de acontecimentos banais. O Instagram também foi se tornando uma vitrine de corpos e rostos com filtros que tiraram a vida da vida real. Se o seu post, texto ou foto, não foi apreciado da forma que você imaginava, talvez ele seja ruim mesmo ou talvez o lugar onde ele estava sendo exibido estava tão cheio de tanta coisa, que não deu para distinguir o relevante/interessante do blá-blá-blá.
O conceito de hobby, puro e simples, quase sumiu do nosso vocabulário. A cultura da produtividade trocou hobby pela exigência do “projeto paralelo rentável”. Antigamente, um cara tinha a licença tranquila de passar as manhãs de sábado na marcenaria só pelo contato com a madeira.
Se alguém perguntasse o porquê, a resposta viria sem cálculo empresarial nenhum. Ele diria que gosta do atrito da lixa. Que o trabalho mecânico limpa as abstrações chatas do dia. Não passaria pela cabeça dele montar um tripé para gravar o corte da madeira, nem publicar as fotos do móvel pronto para receber a chancela da sociedade e poder, enfim, existir como aprendiz de carpintaria. Não havia frase estóica com uma foto de um braço de cadeira. Ou um conteúdo sobre masculinidade vindo de homens que moram com a mãe ou nem têm um relacionamento saudável, nada. Só a presença de estar ali, lixando uma madeira.
Hoje, a gente compra um violão, testa receita asiática, encara um calhamaço de filosofia, se inscreve numa prova de resistência e o reflexo, quase neurológico, é caçar o melhor ângulo para o celular logo no primeiro compasso. Afinal, se não postar o treino na academia, o treino não valeu. #tápago.
Mas pago o quê? Quem está te cobrando para essa dívida ser quitada? Qual é a moeda?
A experimentação de verdade foi desaparecendo. A graça de desbravar restaurante estranho estava no risco de comer mal e na conversa com quem dividia a mesa de plástico. A gente saía de casa para experimentar. Hoje o cardápio obedece ao critério de fotogenia do prato, e a estética da comida sufoca o gosto do tempero. Já que estou no assunto comida, cabe a metáfora: será que somos nós que nos alimentamos, ou estamos alimentando uma máquina gulosa, na ilusão de que o algoritmo vá nos devolver afeto e pertencimento?
As plataformas não venceram por acaso. Elas miraram na parte mais primitiva da gente. O mecanismo explora aquele medo antigo de ficar de fora do grupo, misturado à vaidade de se sentir visto. A promessa disfarçada de conexão oferece um atalho químico para uma necessidade que é real: a de pertencer. E aí a aceitação social vira dopamina barata.
O problema é que a gente não navega mais na inocência do começo. Conhecemos a engrenagem por dentro. Sabemos calcular o alcance de um post, entendemos o preço invisível da exposição. E desaprender isso dá trabalho, porque a consciência do mecanismo já grudou no hábito.
Feito todo esse banho de saudosismo e reclamação, deixo um convite: volte a produzir. Faça a foto para você. Aquela imagem guarda um momento (bom ou ruim) que talvez só faça sentido quando você rever daqui a dois anos. Escreva aquele texto que serve só como desabafo bruto de um dia ruim de trabalho. Se a sua conta principal está engessada por anos de construção de personagem e você sente que não dá para mudar de rota ali, crie outro perfil. Um espaço fechado, onde só você (ou quem realmente importa) tem acesso, livre das amarras da validação.
Não faça as coisas achando que o mundo inteiro está assistindo. E não deixe de fazer porque ninguém vai olhar. Você vai olhar. Retome a sua importância nessa equação. Se de quebra servir para os outros, ótimo. Se a rede acertou quando mirou na nossa necessidade de vaidade escondida e no nosso senso de pertencimento, vamos nos apoiar então em outra necessidade humana: a de criar. Criar por criar. Criar porque produzir alguma coisa é um jeito de se expressar. E, olhando para as paredes das cavernas (o feed de antigamente), dá para perceber que se expressar sempre foi uma necessidade ancestral da gente.
Essa frase é tão nostálgica que parece a introdução da Ann Druyan no primeiro episódio do Cosmos da versão Carl Sagan. Referência aqui. Para quem viu o vídeo, ironia: deve ter sido horrível viver naquela época que ela descreve. Imagine: um mundo em perpétuo medo de guerra. Onde as pessoas não acreditavam na ciência e gastavam dinheiro em armas. Que loucura! Ainda bem que superamos isso.
Mesmo antes da IA. A GenAI só veio para amplificar esse problema. Para quem produzia textos, a IA só tornou o que era pensado e original, como uma commodity. Muitas vezes indistinguível entre algo que teve esforço para ser feito e algo que levou segundos para ser escrito por uma máquina.


